Ela tinha um andar gracioso, complementado com sapatilhas marrons de lacinhos enfeitados com tachinhas, e cada passo era talvez uma tentativa de esconder suas inseguranças. Sua voz não tão alta e com um nervosismo evidente conflitava com comentários paralelos provavelmente zombando do que ela tinha a dizer; talvez o sistema circulatório humano não fosse tão interessante quanto a sua vida, seus problemas e seus sonhos.
Calça jeans de lavagem escura com as barras dobradas cuidadosamente combinada com uma blusa pólo verde-clara colocavam em evidência seu corpo esguio, mistura de uma magreza infantil com curvas de mulher. Seu rosto era o que definimos como "quase bonito": Sobrancelhas grossas bem delineadas formavam uma simetria harmoniosa com seu nariz um pouco protuberante e cabelos longos repartidos de lado, com fios sem corte de tonalidade semelhante ao ébano.
Provavelmente, se eu a visse na rua, eu não olharia pra trás após um esbarro de ombros, mas aqui sentada com essa peça em pé na minha frente eu me senti meio obrigada a analisá-la.
Sua mão segura um Pilot desajeitadamente como quem nunca havia feito isso antes, e seu esmalte vermelho-carmim bem aplicado contrasta com o tom de azul do objeto cilíndrico antes mencionado. Ao olhar para as suas mãos, uma jóia que adorna seu dedo anelar direito me chama a atenção; talvez a mesma tenha uma ligação sigma com as manchas escuras localizadas abaixo de seus olhos que transmitiam desespero, estresse e um ar de esperança jovial.
O tempo vai passando e o seu perfume distribuído ao longo dos seus aproximadamente 1,70m vai se espalhando entre as quatro paredes pintadas de verde e branco, e sua voz começa a atordoar; estava claro que ela não queria estar ali. Estava bem claro que ela não tinha a mínima paciência com os aspirantes a homens que respiravam o mesmo ar que ela, e estava mais claro ainda que o seu pensamento e sua alma viajavam a quilômetros de distância de qualquer lugar diferente do usual, imaginando rostos e fisionomias e estacionando no que possui características familiares e um mesmo objeto gêmeo do seu adornando o dedo tipicamente masculino.
Talvez suas olheiras tenham surgido por alguma preocupação boba. Será que um simples atraso de alguns minutos da habitual ligação de boa noite é o causador de manchas tão escuras? Seu corpo frágil não aparenta carregar marcas e cicatrizes de dor, mas será que a bomba vitalícia que os olhos não vêem carrega?
Seu olhar perdido fixado no horizonte - ou no mural de recados - característico de um monólogo finalmente me localiza e se cruza com o meu: me viu escrevendo e ignorou, prosseguindo com a resolução de exercícios.
Aparentemente Mariana era uma menina-mulher de vinte e poucos anos comum, universitária e adoradora de casas noturnas. Ou não. Essa incerteza que ela me passou desde a hora em que meus olhos foram apresentados a sua imagem me inspirou a analisá-la, talvez por uma possível e inusitada identificação. Provavelmente ela entrou na minha vida da mesma forma que entrou na sala há 1h atrás - cumprindo obrigação sem vontade - e irá sair daqui a alguns minutos quando atravessar a porta verde localizada ao lado do quadro negro com rabiscos e resoluções. Sua vida irá continuar e ela nem irá se lembrar de mim, mas sou eternamente grata a esse ser... São pessoas assim que me motivam a escrever, me dando a chave da realização dos meus sonhos e o combustível da minha vida.
24/08/10
Calça jeans de lavagem escura com as barras dobradas cuidadosamente combinada com uma blusa pólo verde-clara colocavam em evidência seu corpo esguio, mistura de uma magreza infantil com curvas de mulher. Seu rosto era o que definimos como "quase bonito": Sobrancelhas grossas bem delineadas formavam uma simetria harmoniosa com seu nariz um pouco protuberante e cabelos longos repartidos de lado, com fios sem corte de tonalidade semelhante ao ébano.
Provavelmente, se eu a visse na rua, eu não olharia pra trás após um esbarro de ombros, mas aqui sentada com essa peça em pé na minha frente eu me senti meio obrigada a analisá-la.
Sua mão segura um Pilot desajeitadamente como quem nunca havia feito isso antes, e seu esmalte vermelho-carmim bem aplicado contrasta com o tom de azul do objeto cilíndrico antes mencionado. Ao olhar para as suas mãos, uma jóia que adorna seu dedo anelar direito me chama a atenção; talvez a mesma tenha uma ligação sigma com as manchas escuras localizadas abaixo de seus olhos que transmitiam desespero, estresse e um ar de esperança jovial.
O tempo vai passando e o seu perfume distribuído ao longo dos seus aproximadamente 1,70m vai se espalhando entre as quatro paredes pintadas de verde e branco, e sua voz começa a atordoar; estava claro que ela não queria estar ali. Estava bem claro que ela não tinha a mínima paciência com os aspirantes a homens que respiravam o mesmo ar que ela, e estava mais claro ainda que o seu pensamento e sua alma viajavam a quilômetros de distância de qualquer lugar diferente do usual, imaginando rostos e fisionomias e estacionando no que possui características familiares e um mesmo objeto gêmeo do seu adornando o dedo tipicamente masculino.
Talvez suas olheiras tenham surgido por alguma preocupação boba. Será que um simples atraso de alguns minutos da habitual ligação de boa noite é o causador de manchas tão escuras? Seu corpo frágil não aparenta carregar marcas e cicatrizes de dor, mas será que a bomba vitalícia que os olhos não vêem carrega?
Seu olhar perdido fixado no horizonte - ou no mural de recados - característico de um monólogo finalmente me localiza e se cruza com o meu: me viu escrevendo e ignorou, prosseguindo com a resolução de exercícios.
Aparentemente Mariana era uma menina-mulher de vinte e poucos anos comum, universitária e adoradora de casas noturnas. Ou não. Essa incerteza que ela me passou desde a hora em que meus olhos foram apresentados a sua imagem me inspirou a analisá-la, talvez por uma possível e inusitada identificação. Provavelmente ela entrou na minha vida da mesma forma que entrou na sala há 1h atrás - cumprindo obrigação sem vontade - e irá sair daqui a alguns minutos quando atravessar a porta verde localizada ao lado do quadro negro com rabiscos e resoluções. Sua vida irá continuar e ela nem irá se lembrar de mim, mas sou eternamente grata a esse ser... São pessoas assim que me motivam a escrever, me dando a chave da realização dos meus sonhos e o combustível da minha vida.
24/08/10