terça-feira, 24 de agosto de 2010

análise em questionamentos; verde e ébano.

Ela tinha um andar gracioso, complementado com sapatilhas marrons de lacinhos enfeitados com tachinhas, e cada passo era talvez uma tentativa de esconder suas inseguranças. Sua voz não tão alta e com um nervosismo evidente conflitava com comentários paralelos provavelmente zombando do que ela tinha a dizer; talvez o sistema circulatório humano não fosse tão interessante quanto a sua vida, seus problemas e seus sonhos.
Calça jeans de lavagem escura com as barras dobradas cuidadosamente combinada com uma blusa pólo verde-clara colocavam em evidência seu corpo esguio, mistura de uma magreza infantil com curvas de mulher. Seu rosto era o que definimos como "quase bonito": Sobrancelhas grossas bem delineadas formavam uma simetria harmoniosa com seu nariz um pouco protuberante e cabelos longos repartidos de lado, com fios sem corte de tonalidade semelhante ao ébano.
Provavelmente, se eu a visse na rua, eu não olharia pra trás após um esbarro de ombros, mas aqui sentada com essa peça em pé na minha frente eu me senti meio obrigada a analisá-la.
Sua mão segura um Pilot desajeitadamente como quem nunca havia feito isso antes, e seu esmalte vermelho-carmim bem aplicado contrasta com o tom de azul do objeto cilíndrico antes mencionado. Ao olhar para as suas mãos, uma jóia que adorna seu dedo anelar direito me chama a atenção; talvez a mesma tenha uma ligação sigma com as manchas escuras localizadas abaixo de seus olhos que transmitiam desespero, estresse e um ar de esperança jovial.
O tempo vai passando e o seu perfume distribuído ao longo dos seus aproximadamente 1,70m vai se espalhando entre as quatro paredes pintadas de verde e branco, e sua voz começa a atordoar; estava claro que ela não queria estar ali. Estava bem claro que ela não tinha a mínima paciência com os aspirantes a homens que respiravam o mesmo ar que ela, e estava mais claro ainda que o seu pensamento e sua alma viajavam a quilômetros de distância de qualquer lugar diferente do usual, imaginando rostos e fisionomias e estacionando no que possui características familiares e um mesmo objeto gêmeo do seu adornando o dedo tipicamente masculino.
Talvez suas olheiras tenham surgido por alguma preocupação boba. Será que um simples atraso de alguns minutos da habitual ligação de boa noite é o causador de manchas tão escuras? Seu corpo frágil não aparenta carregar marcas e cicatrizes de dor, mas será que a bomba vitalícia que os olhos não vêem carrega?
Seu olhar perdido fixado no horizonte - ou no mural de recados - característico de um monólogo finalmente me localiza e se cruza com o meu: me viu escrevendo e ignorou, prosseguindo com a resolução de exercícios.
Aparentemente Mariana era uma menina-mulher de vinte e poucos anos comum, universitária e adoradora de casas noturnas. Ou não. Essa incerteza que ela me passou desde a hora em que meus olhos foram apresentados a sua imagem me inspirou a analisá-la, talvez por uma possível e inusitada identificação. Provavelmente ela entrou na minha vida da mesma forma que entrou na sala há 1h atrás - cumprindo obrigação sem vontade - e irá sair daqui a alguns minutos quando atravessar a porta verde localizada ao lado do quadro negro com rabiscos e resoluções. Sua vida irá continuar e ela nem irá se lembrar de mim, mas sou eternamente grata a esse ser... São pessoas assim que me motivam a escrever, me dando a chave da realização dos meus sonhos e o combustível da minha vida.



24/08/10

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

DDDD

Tenho andado desnorteada, desmotivada, distraída e dissimulada. Nesse momento eu deveria estar dormindo - e confesso que tentativas não faltaram - mas infelizmente é só deitar a minha cabeça no travesseiro que todos os pensamentos vêm na minha mente como um filme; o início, o meio, e o fim. Fim? Só se for o fim que nunca ocorreu oficialmente... E é esse o motivo das minhas frequentes noites em claro e dias sonhando acordada. Ah, perdão... Sonhando? Fala sério... Vou ser sincera contigo, meu amigo, o que eu tô vivendo tá bem longe de um sonho: caí nas garras de um tremendo pesadelo.
Ando desnorteada pelo simples fato de ter tomado um banho de água fria sem nenhum motivo e sem eu ter feito nada, e perdi completamente a direção e o meu caminho. Desmotivada porque num piscar de olhos eu vi todos os meus planos se despedaçarem na minha frente, e eu ainda não tive tempo para me recompor... Distraída eu sempre fui, sou daquele tipo que observa a tudo e a todos e tropeça nos próprios cadarços de tênis, mas ando passando tanto tempo refletindo sobre tudo que aconteceu que eu não consigo sequer perceber um tiroteio a 2m de mim. O último item é o mais importante, é o que mais me define...
Coloquei uma máscara no meu rosto. Todos pensam que eu estou bem, feliz e pronta pra partir pra uma nova história! Falar é fácil, mas alguém tem a fórmula para tornar real toda a força que eu adotei como fachada do meu corpo? Posso falar mil vezes que te esqueci, mas sozinha no meu quarto de madrugada os meus olhos transbordam solidão todos os dias. Aparento ser bem resolvida, tento causar a impressão de superação, mas o meu interior está completamente destruído e em chamas.
Meu lado emocional e racional estão em conflito constante, você me trocou e nunca me deu uma satisfação. Me mostrou um lado seu que eu temia algum dia conhecer, e acreditava firmemente que nem existia... Qual foi o motivo disso tudo? Fico o dia todo pensando, remoendo, martelando, tentando me colocar no seu lugar e entender a sua posição, tentando criar teorias que justifiquem... Tudo em vão, claro. Logo eu, que sempre estive ao seu lado em todos os momentos e te ajudei como pude, tentei fazer de tudo por nós dois, te aceitei mesmo com todos os seus defeitos e depositei em você uma confiança incomum e um amor puro, que eu nunca havia sentido antes. Um amor que até hoje me sufoca, me tira o ar e me deixa ofegante do mesmo jeito dos beijos utópicos nunca concretizados. E logo você, que me convencia que era diferente, reclamava do mesmo jeito que eu do quanto que as pessoas hoje em dia estão monstruosas. Reclamava da boca pra fora, né? Você se tornou uma delas. Seu maior medo era me perder, que eu desistisse de tudo e fosse embora... Não precisei fazer isso, você já fez por mim. Me expulsou do seu mundo com um chute na bunda e uma facada no peito; me violentou, continuou andando e nunca olhou pra trás pra ver se eu estava bem... Como uma pessoa pode se contradizer tanto? O mais legal da nossa relação era justamente o jeito de como éramos sinceros um com o outro. Parece que eu estava sendo sincera sozinha, parece que eu vivi tudo sozinha. Você nunca conversou comigo pra colocar um fim em tudo, agiu da pior forma e me deixou perdida... Num dia dizia que me amava, no outro dia começa a namorar com uma desconhecida. Por que...?
Ás vezes eu realmente penso que eu te odeio, mas logo depois me lembro de tudo que passamos e chego a conclusão de que ainda te amo do mesmo jeito. Só que infelizmente, meu amigo, você ainda precisa amadurecer... Enquanto isso eu fico aqui, sozinha, acompanhada apenas de trilhas sonoras para a minha desgraça e do meu relógio. O relógio que me faz lembrar que o tempo não para e a vida continua, se você algum dia virar homem de verdade você vai me procurar. Qualquer dia a gente se encontra nas esquinas da vida, e confesso que eu estou ansiosa pra esse momento.